Será que
existe interesse na regulamentação desse trabalho? A medida é defendida
por educadores, psicólogos, assistentes sociais e diversos profissionais
que conhecem, de perto, as condições a que são submetidas crianças e
adolescentes que sonham em ingressar no mundo artístico. A angústia
durante a seleção de candidatos, a frustração dos excluídos, a pressão
durante as gravações e exibições ao vivo, as longas jornadas e os
prejuízos na frequência e rendimento escolares são vivenciados
diariamente por milhares de crianças e adolescentes brasileiros.
Para
o juiz do Trabalho aposentado e professor de Direito Oris Oliveira
impõe-se a regulamentação do trabalho artístico infantil. "A
complexidade é tão grande e os problemas emergentes tão delicados que
não se pode se contentar com remeter-se às normas celetistas ou às
genéricas do ECA", fazendo necessária uma "regulamentação elaborada com
visão multidisciplinar da matéria".
Mas
ele ressalta que a normatização não exclui a responsabilidade da
família no acompanhamento dos menores que se aventuram na área
artística. "Não se deve deduzir ser dispensável a atuação do poder-dever
familiar a tudo que diga respeito ao trabalho dos filhos. Os pais devem
previamente se informar sobre onde os filhos vão trabalhar, em que
condições, assisti-los na celebração do contrato, exigir sua extinção se
prejudicial a qualquer título."
O
desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro Siro Darlan
defende a importância de conciliar o texto legal com a realidade
cultural e social do país. "Criança tem o direito de estudar e brincar;
adolescente de estudar e ser preparado para o exercício pleno da
cidadania e isso inclui a educação para o trabalho, sob pena de ser
alijado do mundo competitivo." Ele alerta para o fato de que privar
crianças de direitos básicos, como educação e lazer, contribui para o
aumento das diferenças de oportunidades profissionais entre os mais
pobres e os mais ricos.
Trabalho Infantil
Embora o artigo 7º, XXXIII da Constituição Federal
proíba o trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de 18
anos; e qualquer trabalho a menores de 16 - salvo como aprendiz, a
partir de 14 anos -, em um passado não muito distante, a situação das
crianças era bem pior.
Ocorreram
grandes avanços na legislação brasileira. Para se ter ideia, no século
XIX, uma criança com oito anos podia trabalhar em fábrica de tecidos, de
acordo com o Decreto nº 1.313 de 1891
que, apesar de limitar a idade mínima em 12 anos, admitia o trabalho a
partir de oito anos, na função de aprendiz, nas fábricas de tecidos.
Essa
realidade começou a mudar somente em 1924, com a Declaração dos
Direitos da Criança, pela Liga das Nações, considerada um avanço nos
direitos infantis. Com a publicação em 1959 da Declaração dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas (ONU) esses direitos foram ampliados.
O
artigo 9 da Declaração dispõe, dentre outros, que a criança deve ser
protegida contra toda forma de abandono, crueldade e exploração e não
será permitido seu trabalho antes de uma idade mínima adequada. "Em caso
algum será permitido que a criança se dedique, ou a ela se imponha,
qualquer ocupação ou emprego que possa prejudicar sua saúde ou sua
educação, ou impedir seu desenvolvimento físico, mental ou moral."
O
mesmo Organismo, 30 anos depois, em 1989, na Convenção das Nações
Unidas sobre os Direitos da Criança e do Adolescente (artigo 32), previu
a obrigatoriedade de o Estado proteger a criança do trabalho que
constitui uma ameaça à saúde, educação, e desenvolvimento. Estabeleceu
idades mínimas para a admissão em emprego e regulamentou as condições
permitidas para o trabalho do menor.
Flexibilização para trabalho artístico
No Brasil o trabalho infantil é proibido para menores de 14 anos, segundo o inciso I, § 3º do artigo 227 da Constituição Federal. Também a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) no artigo 403 o proíbe para menores de 16, salvo na condição de aprendiz, a partir dos 14.
Embora
a proibição se estenda a todas as formas de trabalho, quanto ao
artístico infantil, existe uma flexibilização, prevista no artigo 406 da CLT,
segundo o qual, o juiz de Menores poderá autorizar o trabalho em
empresas circenses - como acrobata, saltimbanco e ginasta – e na
produção, composição, entrega ou venda de escritos, impressos, cartazes,
desenhos, gravuras, pinturas, emblemas e quaisquer outras. Desde que a
representação artística tenha fim educativo ou a peça de que participe
não prejudique sua formação moral.
Lançando
mão desse artigo alguns veículos de comunicação, especialmente a
televisão e o cinema contratam crianças com idade inferior à prevista na
legislação para trabalhar como atores. Também é possível vê-las atuando
como modelos, contratadas pelas agências de moda e de publicidade.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/90),
no artigo 149, dispõe que compete à autoridade judiciária disciplinar,
através de portaria, ou autorizar, mediante alvará, a participação de
criança e adolescente em espetáculos públicos e concursos de beleza.
Contudo, a autoridade deverá considerar as peculiaridades locais, a
existência de instalações adequadas, a adequação do ambiente à eventual
participação ou frequência de crianças e adolescentes, entre outras
coisas.
Autorizações
O procurador do Trabalho Rafael Marques explica que a Convenção nº 138 da Organização Internacional do Trabalho (OIT),
sobre a idade mínima de admissão ao emprego, ratificada pelo Brasil,
admite a possibilidade de trabalho artístico para menores de 16 anos, em
situações excepcionais, individuais e específicas. Mas também
especifica a necessidade de licença ou alvará individual, o qual deverá
definir em que atividades poderá haver o trabalho e quais as condições
especiais.
A
psicóloga Mônica Soares Cazzola lembra que esse alvará individual "é
utilizado geralmente nos casos do trabalho de ator e atriz nas novelas,
ou de participações de menores na mídia televisiva em geral". No caso de
atuação de crianças em matéria publicitária ou em figuração nos canais
de televisão, "utiliza-se um mero termo de cessão de uso de imagem
assinado pelos pais", afirmou.
O
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) admite a participação de
crianças e adolescentes em espetáculos públicos e seus ensaios, desde
que a autoridade competente observe entre outros pontos, o tipo de
frequência habitual ao local, o horário da atividade a ser realizada e a
manutenção da frequência à escola.
Justiça e Ministério Público impõem restrições
Uma
recomendação conjunta será editada pelo Conselho Nacional do Ministério
Público (CNMP) e Conselho Nacional de Justiça (CNJ) estabelecendo os
requisitos necessários à concessão de autorização excepcional para o
trabalho infantil artístico, a menores de 16 anos, conforme prevê a
Convenção 138 da OIT. Deverão ser observadas condições muito específicas
que garantam a proteção dos direitos fundamentais das crianças e
adolescentes.
TST e sociedade discutem medidas de proteção a crianças e adolescentes
Na
próxima semana, a partir de terça-feira (9), o Tribunal Superior do
Trabalho começa a discutir com a sociedade temas de séria relevância no
combate ao trabalho infantil. E o trabalho artístico será amplamente
analisado pelos ministros juntamente com especialistas.
Fonte: http://www.tst.jus.br/home/-/asset_publisher/nD3Q/content/a-dificil-tarefa-na-regulamentacao-do-trabalho-infantil-artistico?redirect=http%3A%2F%2Fwww.tst.jus.br%2Fhome%3Fp_p_id%3D101_INSTANCE_nD3Q%26p_p_lifecycle%3D0%26p_p_state%3Dnormal%26p_p_mode%3Dview%26p_p_col_id%3Dcolumn-3%26p_p_col_pos%3D1%26p_p_col_count%3D5